quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Regresso a Vénus

Repostagem
REGRESSO A VÉNUS


            … Uma caixa de brocas perfurantes; radar/gps com funções de mapeamento; dez baterias de Z amperes; três caixas de pílulas XPT; três venuso-fatos; tenda venusiana ultra… Logística completa!
            Vinte e dois de Dezembro de 2040, 14:30h TMG, algures numa base europeia de vocação espacial, e logo após uma contagem decrescente, um foguetão inicia a sua ascensão aos “céus”.
            …Vinte e quatro de Dezembro de 2040, 22h TMG, três homens, depois de terem comunicado com as suas famílias, acabam de se “deleitar” com uma “faustosa” refeição sintética… Até que soubera bem; até que estavam bem-dispostos…fisicamente. A missão corria na perfeição!
            Todavia sentiam-se tristes, tristes porque não haviam trazido consigo um pedaço de musgo, uma árvore de natal.

            Erro de logística!

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Ping Pong e outras Coisas



O polivalente da escola, uma secundária da académica Coimbra, era palco de um vaivém ininterrupto de jovens sem tempo - foi o que pensei na hora, não agora que refleti com tempo -, tal não era a pressa de chegar sei lá onde, talvez, quem sabe?, ao sítio de onde nunca saíram.

Era hora de almoço, este não furtava grande tempo aos destinatários, até porque uma boa parte das refeições era servida no bar, no balcão das sandes e dos sumos, de modo que, assim, aquele pátio interior, naquela tarde de chuva, como noutras em horas destas e a rua a não convidar, encontrava-se à pinha. Ouvia-se uma musiquinha nos altifalantes do equipamento, música pop-rock, para gregos e troianos, assim não há problemas. Às vezes, algum aluno mais ousado, por exemplo um gótico assumido, lá metia algo que enojava muitos e deliciava alguns, o seu clube restrito, com palavra, santo e senha. Como qualquer culto, pelos seus adorado, pelos outros abominado. Metal, trash metal, hard rock, também por lá passavam. Até jazz, vejam lá... putos a gostarem de jazz! Mas, calma, o pacífico pop-rock era hegemónico. De quando em quando, a vez dos outros. Havia como que um contrato tácito, no que respeita à música ambiente – não ao som ambiente, que esse era uma mistela de muitas coisas, coisas de gente e coisas de coisas (como é bela e útil esta palavra tão polissémica! O Mário Zambujal bem que tem razão), ruídos, por assim dizer. O certo é que nunca presenciei rixa alguma por causa de um ou outro ouvido mais azucrinado por esta ou aquela música que o outro meteu no leitor. A indignação, que a havia, era contida pelo respeito. É, a malta também possui esta ferramenta, se por vezes não a usa é mesmo porque não quer. E isto pode ser lamentável ou não. Quer dizer, é, é sempre, estava aqui a pensar na irreverência, mas esta quando justificada e pura nunca é falta de respeito. Concordam? Vocês também o serão, não? Eu sou-o, eu cá sou irreverente e sempre fiz por sê-lo. Houve até alturas em que uma coisa – Estão a ver? Bendito vocábulo! – a que chamam bom-senso me tentou impedir de me insurgir contra a verdade de outros, e eu, logo todo abespinhado comigo mesmo me disse: “Estás tolo ou quê pá? Pior, és covardolas agora, és? “. Foi logo, rajada de argumentos e chuva de ações atacantes, que a melhor defesa sempre foi o ataque.

Bem, era um vaivém de gente para um lado e para o outro, de todos e para todos os lados; as cadeiras todas ocupadas; o palco da sala também repleto, os parapeitos das largas janelas eram assento de casalinhos assolapadamente apaixonados, para toda a vida de uma semana, que para a outra, as outras, existirão outros assentos, outras janelas, como sempre acontece. O é só a ti e a mais ninguém assume aqui, nestas salas, nestes encostos, uma verdade tão absoluta quanto a que assumirá mais tarde em salas maiores ou menores, e cadeiras com outros tampos. Era um vaivém ininterrupto e um barulho, agora assumo, um barulho ensurdecedor, da música, das palavras, dos gritos, dos risos, do arrastar das cadeiras e das mesas, enfim, das coisas todas, era um barulho ensurdecedor e, alheia a tudo em seu redor, alheia de ouvidos e mente, aquela jovem não focava senão o ecrã do seu smartphone. Ora escrevia, ora lia, ora escrevia, ora lia, assim durante, sei lá!, no mínimo uma boa meia hora, que foi mais ou menos quanto eu demorei à porta da Direção, enquanto esperava o diretor, a fim de resolvermos uns imbróglios próprios das coisas das escolas. A diligência foi rápida e eficaz. À saída, e já a preparar-me para ir para uma aula, acerco-me da jovem e, mesmo não a conhecendo de todo, pergunto-lhe: “Posso jogar com vocês“, “ Jogar?! Jogar a quê?”, “Às mensagens, ao ping pong de mensagens.“ Perante a sua estupefacção, não insisto, retiro-me e vou dar a aula. Até porque o tal bom-senso me dizia que não era motivo para uma falta injustificada.




 

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

O mais do tempo, voo!

Vim de longe
De outros lares, de outras lições
Onde em clausura, qual monge!
Me afundei em emoções

Quis sair
Fiz-me ao caminho
Troquei todo o meu vestir
voltei de novo ao menino

Novo começo
A novidade
Mas na alma um arremesso
Me alertava pr’á saudade

E nesse brado
Que vem de dentro
Vejo-me louco, enganado
Na direção do tormento

Volto a mim
Dou-me à razão
Junto ao verde o carmim
É esta, a minha canção

REFRÃO
Com barbatanas nadei
Não muito, que não gostei
Não é pr’a mim isso, eu sei

Deram-me asas
e voei, voei, voei...
Sem pausas sempre voei

Porquê, mãe natureza?
(Ocorre-me perguntar)
Se nem o pássaro, que adeja
Vive constante no ar!

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Sobre Música - Aplicando-se a outras artes


Coltrane tocava de forma magistral. Ninguém necessita tocar como ele, aliás, convém nem o tentar. A magistralidade só poderá conseguir-se, como ele e muitos outros a conseguiram, não imitando-o, não imitando-os. Muito pelo contrário, somente usando a informação, as ferramentas ao dispor de todos, matérias-primas que, uma vez apreendidas, com imenso trabalho, dominadas com destreza, mas sempre em simbiose com um coktail imprescindível – personalidade, idiossincrasia, alma - se chega a… Num dizer mais comum: talento e tormento; inspiração/transpiração. Muitos o afirmam, eu o confirmo, 99% será trabalho.

            Tratamos de magistralidade, um tanto acima da excelência. Para aquela, condição sine qua non: não à imitação. Quanto à outra existe lugar para a cópia, o cover - com trabalho, muito, e algum talento, os resultados ver-se-ão. Para aquela, quem aqueles pressupostos não respeitar, porque não pode ou porque não quer - na composição, na execução -, jamais, tenho para mim, marcará pontos. Limitar-se-á a debitar, em matemática sonora, a informação recolhida. Será igual a tantos outros por esse mundo afora.

            Talvez Coltrane, como outros verdadeiros mestres, desejasse um futuro de progresso infinito para o Jazz, para a Música em geral; talvez sonhasse que um dia o superassem, não em magistralidade, mas em conhecimento e ferramentas. Ele sabia que não podemos estacionar nos clássicos e seus standards, que devemos usá-los para avançar, como uma parte do Caminho. O Caminho que só os que marcam pontos podem construir. Na origem nem tão pouco havia asfalto, depois ele surgiu, mais tarde de qualidade e textura mais condicentes, agora e no futuro com renovadas formas de pavimentação. Porém, sempre o mesmo caminho que, e aqui é que está o Ganho, em nenhum sector jamais sofrerá desgaste, dano algum, tal não fora a qualidade de construção.

             É obrigação de quem pode, continuar a Estrada!

terça-feira, 24 de junho de 2014

Casas do Povo


 

            No dia 26 de Abril de 2014, um sábado primaveril, eu, o meu irmão e um grupo de amigos fomos tocar à Casa do Povo de Mira.  Um evento no âmbito das comemorações dos quarenta anos do Vinte e Cinco de Abril de Mil Novecentos e Setenta e Quatro. Tocámos e cantámos músicas e canções – Palavras vestidas e engalanadas, sem vaidades, apenas para que mais facilmente despertem a atenção daqueles por quem vivem - a condizer, pois claro! Não faltaram o Zeca, o Zé Mário, o Sérgio, o senhor Paredes, entre outros nomes Maiores do nosso manancial musical de intervenção. Havia, como sempre em tudo há, limites de tempo, caso não, muitos mais companheiros de causa se lhes teriam juntado.

            Houve também Poesia dita, e que bem dita que foi por um grupo de boa gente de Aveiro que fez questão de, com razão e emoção, aceder à solicitação que lhes fora dirigida! Bonito! Poesia da grande, daquela que menos não é que Filosofia. Filosofia como a Filosofia, Filosofia-Filosofia, que há uma só, aqui, no entanto, mais amante do sentimento, da forma, da imagem bela cultivada mas não adulada, dos gestos, dos sons. Sim, que um Poeta é um Filósofo esteta.

            Houve ainda discursos à maneira - daqueles não prolixos, que o tempo, como se disse, também não era muito -, dos que com pouco se diz muito.

            Bem, correu tudo pelo melhor. Senti-o assim, parecendo-me que aos outros lhes sucedeu o mesmo. Correu tudo maravilhosamente bem a nós, músicos, aos Dizedores de Poesia, à organização do evento, bem como aos seis espectadores indefectíveis que assistiram ao espetáculo... As portas encontravam-se franqueadas, era para todos, até dar, claro, mais apenas vieram seis! Apesar de não se tratar de Pop-Rock, confesso que esperava muito mais. Ainda assim, reitero, foi maravilhoso. E depois a coisa talvez não tenha sido bem divulgada. Nem na SIC passou!!!!

            Mais uma coisita: assomou-me à cabeça que o facto de nesse dia as portas da Casa do Povo se encontrarem abertas, e para quem quisesse, tal não significava que sempre ou com regularidade aceitável assim fosse. As portas estavam abertas, verdade; de vez em quando estão abertas, verdade. Alguém as abre. Alguém que tem as chaves, digamos, o senhor das chaves, ou um dos senhores das chaves da Casa do Povo. É que a Casa é do Povo – e neste país existem tantas! -, mas só alguns têm as chaves!

terça-feira, 27 de maio de 2014

Coisas Curtidas

         Os tremoços e as azeitonas estão a curtir. A pele também curte. Cá para mim, tudo malta fixe, curtida! Os tremoços e as azeitonas, tenho a certeza, para além de curtirem uns com as outras também curtem rock, vá lá, pop-rock...mesmo jazz. A pele, essa curte música de dança. Não há outra hipótese!

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Ping Pong


Há bocado, aí pelas dez e meia, encontrando-me à mesa de um café a beber o “Copo da Casa”, eis que vislumbro, perto de mim, numa mesa ali ao lado, uma bela e elegante moçoila tenazmente entregue à nobre tarefa de ping pong de mensagens...

Ganhei coragem, acerquei-me dela e perguntei se podia jogar com ela, “Jogar a quê?!”, ela, “Às mensagens”.

Ela sorriu, e eu não fui atrás... És cá um tóininho, Ricardo Manuel, uma pena!

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Jogo de Cintura


Se toda a gente dissesse apenas o que pensa, se todos, sempre que falamos, jamais traíssemos a nossa verdade; se todos sempre se comportassem de acordo com as suas convicções, tão e tão só de acordo com elas, ai da sociedade!... Não funcionaria, de todo! Uns para cada lado, o caos instalado, um turbilhão de intenções concebidas para nascer, impossíveis de abortar, arrancadas das entranhas de quem em prática as daria a conhecer, a profusa confusão, o fim da arreigada e heterogénea tainada. Amizades, poucas. Veríamos, no entanto, sorrisos genuínos, ouviríamos gargalhadas loucas de paixão pela razão do próprio riso; como ouviríamos choros intensos, profundos e inelutáveis lamentos.

            De acordo com este raciocínio, e querendo nós que a sociedade funcione e em pleno, há que, se não formos ingratos, fazer um elogio à hipocrisia, dizer um: bem hajas, hipocrisia! Bendita hipocrisia, benditos hipócritas, nós! Os que não o são, ora, esses doutrinam a confusão. Longe desses!

Bem, num modelo social em que discutir é trocado por ralhar; em que uma peleja de natureza argumentativa, com arsenal puramente dialético, retórico, é preterida em benefício de uma batalha por ideias feitas e tidas como verdades absolutas, opiniões que são as válidas porque são nossas, ideias e opiniões que se querem impostas porque são as que perfilhamos, uma batalha que quando ganha emite diretamente do perdedor para o ganhador quantidade apreciável da sua energia; numa sociedade que não tem em relação à discussão o apreço que se deve ter por tudo o que permite chegar à razão, à verdade do momento, do tempo -mais ou menos alargado,  não importa-, do tempo de todos os contemporâneos e, se for o contexto, dos tempos dos que já foram e dos daqueles que hão de vir, num modelo social assim, somente, mesmo!, com jogo de cintura! É, quando o paradigma construído e largamente difundido é este, e tão bem sabemos que o é, então só nos resta, de facto, se almejamos um grau de intranquilidade satisfatório -que a tranquilidade absoluta não é uma opção do catálogo-, entramos no jogo. E sim, faz todo o sentido o elogio à hipocrisia. É um elogio proveniente do bom-senso e da resignação, mas merecerá ser genuíno. Não, não temos que nos envergonhar de genuinamente elogiarmos algo que interiormente repugnamos, pois é uma ferramenta fundamental que nos é oferecida. Com ela construímos os apetrechos que nos evitam tropeços, trambolhões, mazelas várias. E até podemos aduzir aqui a estas alegações exemplos de quão mazelados, literalmente, ficamos de quando em quando, ao optarmos em determinadas alturas pelo não fingimento, entrando desse modo numa outra via, a do porradar. São frequentes estes exemplos, pelo menos apresentam uma frequência muito acima do que uma sociedade, um grupo de sócios, não é?, deveria admitir. Muito para lá do tolerável, pois somos o habitáculo da imperfeição, logo episódios daquele teor serão sempre admitidos, mas sendo raros, exceções, não como exceções/regra.

É que, e isto é-nos tão natural, cultural, quando entramos numa discussão é já com o pressuposto de que a razão é nossa, como tal nunca nos poderá passar pela cabeça, ainda que passe, mudar de opinião. Se o outro é deveras persuasivo, tão eloquente que nos consegue mesmo uma mudança, raramente lhe mostramos isso, em sua vez, zangados –e só pode ser conosco próprios-, porradamos!

Bendito Jogo de Cintura!

 

quinta-feira, 8 de maio de 2014

VIVER NO TEMPO; VIVER O TEMPO


 
 O que depreendo; pelo menos o que penso:

            Viver no tempo sem viver o tempo implica uma atitude de absoluta passividade. O sujeito que está na vida deste modo é como que um passageiro com passe vitalício mas com destino limitado e circular. É curto o raio da sua ação, sendo em consequência curto o diâmetro da circunferência que descreve com os seus curtos passos; para mais, não ousa nunca sair do perímetro, da linha. Nunca experimenta uma inflexão, fosse ela ao menos para dentro. Confunde-se o seu local de origem com o de passagem, passagens ou mesmo estadas. Apenas aquele, o de origem, é de algum modo pensado, e não por ele.

            O facto da posse de um passe assegurado e vitalício, pelo menos enquanto for senhor da razão, da sua razão, pode levar-nos a crer ser um paradoxo o acima afirmado, mas será de pequena duração esta hesitação. Pois uma ausência de restrições de movimentos existe, porém ela é parceira de uma permanência, a da limitação de horizontes. Um sujeito deste tipo pode - como todos os que podem, todos os que estão na posse da razão, da sua razão -, pode mas não tem vontade. Esta é-lhe alheia. Sabe que existe, que é dos conceitos materializáveis mais importantes, até experimenta, de quando em quando, encontrá-la, mas depressa desiste. É um sujeito com posses mas sem vontade! É alguém que se deixa conduzir, que não decide caminhos, rotas, alguém que por norma não faz escolhas. A vida, o próprio tempo é para este sujeito o decisor, o transporte e o condutor.

            Ora, ao invés, um ser que viva o tempo, é um sujeito ativo. É ele             quem traça as rotas no mapa, quem o procura, quem aponta para esta ou aquela escala, quem o estuda, quem o reflete. Pode até nem compreender todos os percursos - e é isto mesmo que acontece a maior parte das vezes -, pode até nem levar até ao fim algum dos empreendidos, pode até nem cumprir nenhum, porém atreve-se a encetar a viagem, mais, tudo faz por ela, pois é para ele fundamental que as coisas tenham sentido, e elas apenas o têm se o seu cérebro e toda a orgânica que compõe o seu todo material, em conjugação com o que nele é espiritual empreenderem, não se acomodarem. Para este sujeito o tempo é o transporte, o veículo, mas é ele quem o conduz. Um sujeito assim viaja de verdade, na Terra, no Éter, por onde lhe for possível. Faz escolhas, as possíveis e as impossíveis. Constrói possibilidades ou miragens de possibilidades. Numas e noutras, construções... a vida!

domingo, 4 de maio de 2014

Palavras "Novas"

...
Ninguém pensava, mesmo tendo em conta a vitória em casa por dois a um, que o Benfica chegasse à Final da Liga Europa. O adversário era muito poderoso, historicamente muito poderoso. À Juventus, nunca, de todo!, lhes passou pela cabeça ficar a assistir à Final da prova, ainda por cima no seu estádio, desconfortavelmente instalados em sofás, frente a plasmas. Mesmo os benfiquistas, lá bem no seu íntimo, despensavam da capacidade da equipa para ultrapassar o manhoso e poderoso concorrente e chegar à Final de Turim. Tal é a himalaianeidade da empresa! Sim, um objetivo possível, mas de grau de dificuldade himalaiano, convenhamos!
O jogo da segunda mão? É daqueles espetáculos que só mesmo ouvistos!, como uma Obra Maior em música.

terça-feira, 22 de abril de 2014

A Flecha Ciumenta

Nos quarenta anos sobre o inesquecível Abril:


A pessoa de quem vos falo, o senhor Ernesto, ronda os sessenta e cinco anos de idade e serviu a pátria, de arma quase sempre em riste, nas quentes e húmidas terras da Guiné-Bissau.
Naqueles tempos em que se servia a pátria nas pátrias doutros, devia ser cá uma coisa, uma agonia do caneco a altura da concepção. Pior ainda o período de gravidez! Nada como agora, absolutamente, menino ou menina, desde que venha com saúde… Ainda se conta muito. Contam eles, os filhos, recordam-no elas e eles, muitas delas e muitos deles ainda, as mães e os pais. É que menino grande e saudável, se não tivesse um certo factor por cá muito usado - ainda hoje, embora a outros propósitos, que não somos nada secos de atavismos -, faria cruzeiro pela certa. Inspecções, recruta, especialidade e, se tudo estava nos conformes, zumba, África com ele!
O problema é que aquilo por lá, pelo menos na Guiné do meu vizinho, não era cá pr’a brincadeiras. Era forte e feio. Nas outras pátrias dos outros a que chamávamos nossas – e eram-no, dos que lá nasceram, concordo! -, nas outras, as coisas também não eram belas, pelo contrário, mas ali eram mal pior. Muitos dos Ernestos por lá ficaram, outros vieram sem fazer as malas, outros, os demais, chegaram sem de verdade nunca terem de lá partido. É o caso do Ernesto da minha rua. Durante anos tirou férias nos dias da festa da terra, para se acoitar numa aldeia vizinha, na casa de um irmão mais velho que por lá casara. E diz quem o conheceu que não havia melhor dançarino, só que foguetes, ohh!, terrível, logo para o chão. Ao segundo dia de festa do primeiro ano a seguir à desmobilização, casa do irmão com ele até os arraiais e a foguetada terminarem.
De vez em quando, raro, atreve-se a falar de determinadas passagens, de cenas que os seus olhos filmaram sem a sofisticação de Hollyood, mas de forma mais indelével. Recordo aqui uma, daquelas que nunca o abandonam, por mais rude que seja o cajado ou potente que seja a metralhadora com que tenta afugentá-la. Contou-ma várias vezes, sempre como se fosse a primeira:
Era Agosto, um calor infernal e uma humidade viscosa, peganhenta, tornavam a atmosfera quase tão difícil de suportar quanto o medo das armas adversárias. O seu pelotão, há cerca de dez meses na Guiné, dirigia-se, como era rotina, para o interior a fim de substituir um outro pelotão que protegia uma ponte, muito importante para as comunicações terrestres, numa área do mato perigoso – ele até dizia que nenhum mato é perigoso, que perigosas são as pessoas. E dizia mais, que não eram só as de lá que eram perigosas, as de cá também o eram! -, quando, quase a chegar ao destino, sofreram uma emboscada dos rebeldes guineenses, os que lutavam pela independência do seu país, a quem na altura os portugueses chamavam “turras”. O ataque provocou várias mortes no pelotão do senhor Ernesto e do Tony, o seu camarada inseparável - se para isso só a vontade deles contasse -, e um número grande de feridos. Ele não dizia quantas mortes e quantos feridos ao certo, ou por não saber ou por achar que isso não era o mais importante. Referia no entanto que só não morreram todos porque os colegas que iriam ser rendidos – substituídos – ouviram o tiroteio e vieram rápido em socorro deles.
O Tony foi um dos feridos, dos gravemente feridos, com balas nas pernas e, o mais grave, com uma na coluna vertebral. Foi esta que o deixou para sempre paralítico. Paralítico aos vinte e um anos de idade!
A única coisa que não é triste na história do Tony, disse-me com emoção indisfarçável, foi o facto de a sua namorada de sempre, aquela que o amava enquanto ele caminhou direito, continuar a amá-lo sentado na cadeira de rodas. E de, naturalmente e rematando um desejo inelutável, terem, pouco tempo depois de ter sido desmobilizado e chegado à metrópole, ao Portugal ibérico e europeu, casado. Ela não o abandonou, e casaram. Ernesto não foi ao casamento do amigo, mas recebeu copioso relato do mesmo em aerograma que ainda hoje religiosamente guarda.
“ Há já alguns anos que não vejo o Tony “ - disse-me da última vez que me projectou a cena, pois as coisas complicaram-se e o amigo teve que ser internado no hospital do Alcoitão, um Centro de Medicina Física e de Reabilitação dedicado a prestar cuidados de saúde a pessoas portadoras de deficiência de predomínio físico, congénita ou adquirida, oriundas da sociedade em geral, mas com enorme clientela nos “deficientes” das Forças Armadas Portuguesas -, “ Há já alguns anos que não vejo o Tony e, segundo me disse um amigo comum, nunca mais ninguém o verá, pois falecera. Falecera naquele hospital, vítima das muitas sequelas que aquelas balas deixaram - principalmente uma delas, a mais perigosa de todas -, há cerca de quatro anos. “ Ernesto, visivelmente abatido. Mais um estilhaço alojado na sua cabeça. Não era necessária radiografia, notava-se bem à vista desarmada.
Aquele era mesmo um tempo em que as mães rezavam para não terem filhos-homens. É que as raparigas não iam à tropa… e mãe é mãe!
Bem, dos dezanove anos de sono tranquilo, até mesmo em bebé, lembrava sua mãe, já velhinha, Ernesto não tem memória. As noites são todas passadas em carreiras de tiro, pistas de obstáculos, mato cerrado e emboscadas. Sobressaltos seguidos de sobressaltos. A mulher, de tanto treino e tão grande vivência, já pela guerra não dá. Nem de dia - quando a normalidade dele, à custa de grande esforço de todos os do seu universo, se aproxima da dos outros -, nem no leito. Pois quem se importuna com a familiar normalidade?! De quando em quando, uma excepção. Há umas noites, uma. Na mercearia da rua, de manhãzinha à hora do pão, todas a ouviram… com respeito: “ Esta noite o meu Ernesto, nem quero que me lembre, então não desata aos gritos, altos gritos, acordei logo, a dizer que estava a ser perseguido por uma seta e que esta não o largava. Que quanto mais corria, mais a seta voava; se virasse para a direita, a seta ia também para a direita; se escolhesse a esquerda, era para a esquerda que a seta ia. Disse-me que parecia daqueles mísseis que só param quando atingem o alvo. Acordou aflito e lavado em água, e a dizer que ainda bem, que se continuasse a dormir a seta ainda o apanhava. E sabem o que me disse? Que enquanto corria perguntou à seta que mal é que lhe tinha feito e que ela lhe disse que era para ele aprender, para que não sonhasse só com balas, granadas, morteiros…! E depois disse-me que lhe chamou flecha ciumenta.”
O senhor Ernesto ainda não é velho, mas da sua mente não posso dizer o mesmo. O senhor Ernesto tem o corpo todo, mas a sua mente encontra-se mutilada. O senhor Ernesto trouxe de África duas tatuagens, uma num dos braços, outra na mente!

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Parabéns, Benfica!

Parabéns, Benfica! Porto, lamento!

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Real Madrid sem Cristiano Ronaldo? Humm!

Ai o Real sem o Cristiano!!! Um tudo-nada acima duma vulgar, vá lá!, média equipa de futebol. Frango de churrasco sem piri-piri!

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Parabéns Porto; Parabéns Benfica!

Pela razão evocada no post anterior.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Parabéns Benfica!; Parabéns Porto!

Sou sportinguista, mas acima de tudo português! Sei que ficam mais fortes. Estas coisas são alimento, nutrição de qualidade; sempre fortalecem quem as aproveita. E isto para os outros não é bom, pois vão ter que disputar com pares ainda mais musculados, mais fortes. Mas, como disse, sou acima de tudo português, e isto vale. Daí, pronto, reiterados e sinceros Parabéns!

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Medicina


A propósito de um caso, que conheço, em que um menino com uma doença rara - tão rara quem ainda ninguém vislumbra nome para a dita - tem sido, não digo negligenciado, mas tratado com alguma displicência por quem o tem seguido. Apenas agora se considerou a pertinência da intervenção de várias especialidades médicas no estudo do caso. É, agora, um Caso de Estudo.

A medicina é semiologia; é intervenção; é terapêutica. É também dedicação, plena, e humildade... A Medicina, com letra Grande!
O laboratório e a prática andam de mãos dadas no avanço daquela atividade humana bem científica, mas tão empírica por natureza. O laboratório plural, multidisciplinar, e a prática. Porém tal não se coaduna, de todo, com negligência e ausência de uma saudável ambição por saber mais, ir mais além nas possibilidades.Com a soberba, a sobranceria, ainda vá!, se a idoneidade e a genialidade, bem como a capacidade para um intercâmbio, coexistem num espírito forte mas narcísico, grato tanto e tão só a si próprio... ainda vá!. Com negligência, displicência, falta de ambição, Não! Porque não dá, não dá mesmo, nem faz sentido!
Concordam, senhores a montante, no meio e a jusante destas Coisas?
A Ciência não é um jogo solitário!


sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Marca "Portugal", urgente! E não me refiro ao Ronaldo

Não sou um indefectível do Facebook - fez esta semana dez anos, a propósito -, ainda assim de quando em quando vou lá... ver os meus "amigos" e postar umas coisitas.

Há tempos, ainda ele era demasiado curioso, pois não cansava de nos importunar com o "Em que estás a pensar", postei isto:


Em que estou a pensar?... Olha, Face, estou a pensar que os portugueses, na sua maioria, não são, de todo, como a senhora Merkel os definiu. Tb aqui moram a excelência e o trabalho. O Pritzker, sim, o Nobel da Arquitectura, vem pela segunda vez para Portugal. Quantos países, dos desenvolvidíssimos, se dão a esse "luxo"?
Viva Souto Moura; Viva Siza Vieira; Viva Portugal!... Lá fora é k é bom, mas... acabemos com isso!... Até pq o "lá fora"
é muita Geografia!

domingo, 2 de fevereiro de 2014

O Caso Molas da Roupa

Lá fora o sol batia a pique. Eram cerca das duas tarde, e eu para a minha mãe “mãe, preciso de duas molas da roupa.”, e ela “não me digas que vais sair de bicicleta!”, “vou, sim.”. Era um domingo de Agosto, e havia arraial à tarde ali numa aldeia bem pertinho da nossa. E o conjunto era bom, dos melhores mesmo. Daqueles que arrastam sempre muita gente, muitos rapazes, muitas raparigas. Uma coisa atrai a outra, e uma ideia, uma certa ideia que se faz, não que se tem, atrai todas… as coisas. Era um domingo de Agosto, naqueles anos em que Agosto já era Inverno, porque nesse tempo primeiro de Agosto era primeiro de Inverno. Dizia o povo, e o povo nestas coisas pouco se engana, pouco ou nada mesmo. Povo sábio, saber que só existe porque se viveu o sabido. Povo sábio!... se te tenho dado ouvidos… não tinha chegado a casa no estado em que cheguei, uma bolha de água comigo lá dentro. Povo humilde e sábio, que pões o teu manancial de coisas que importa saber ao serviço de todos. Claro, não és masoquista, todos somos tu! Povo sábio, se te temos dado ouvidos, eu e os meus três companheiros de caça, nenhum de nós passaria pelo que passou, cada um em sua casa, nesse domingo à noite, pela hora do jantar.
A minha Esmaltina estava sempre um brinco. Travões afinadíssimos, corrente sempre oleadinha, quadro sempre esmerado, guarda-lamas impecáveis, campânula sempre com lâmpadas a dar luz – que as havias aos montes com as lâmpadas sempre fundidas, ou mesmo sem lâmpadas. Seriam bicicletas para o dia? Talvez, mas o certo é que também as via a circular à noite. Via-as porque para lá apontava a potente luz da minha. -, dínamo potente, daqueles que exigiam das pernas, pneus, bem, com os pneus é que a coisa nem sempre corria bem, ficavam depressa carecas, e eu tinha que os aguentar, eram caros. Na parte de trás o suporte, que nós apelidávamos, qual anglófono!, de sport. Por debaixo deste, uma caixinha com ferramentas, cola e remendos para algum furo que vitimasse a câmara de ar. No quadro, à frente, atrás ou em cima, consoante o modelo, uma bomba de ar. Tudo o que era preciso para fazer quilómetros e mais quilómetros, pois então!
“Não sobrou nenhuma, acabei de meter a roupa no fio.” Fui averiguar da verdade daquela informação, e deparei-me de fronte com ela. De facto as molas estavam todas ocupadas. “ Ó raio, como é que eu vou agora fazer?”, sempre tive a mania de conversar comigo mesmo. Por vezes até fico rouco, vá lá, disfónico, pronto! “ Olha ali aquela combinação tão agarradinha ao fio! Assim, tão caída, tão coladinha a ela própria, a parte de cima à de baixo, tão morta sobre o fio, nem vai precisar de molas. Vão ser já aquelas duas.”. E foram, tirei-as, a combinação deixou-se ficar, nem deu por ela, eu pego nos quatro pedacitos de madeira -dois a dois unidos por uma mola metálica-, e meto-os no bolso. Chego à minha mãe e digo-lhe até logo, saio de novo de casa, dirijo-me à arrecadação e pego na bicicleta, na minha Esmaltinha, o meu veículo estimado e cobiçado, que eu sei, eu sei que o era. Ele cobiçado e eu invejado. Bem, já na estrada meto a mão direita no bolso, e molas cá para fora. Eram as calças do Domingo, tinha que as proteger do óleo da corrente. Mesmo com as da semana fazia isso, quanto mais com as do Domingo! Uma mola para a perneira direita, outra para a esquerda, mesmo ali juntinho aos sapatos.
Em cima da bicha, vou ao café, onde já me esperavam o Francisco, o João e o Manel. O Mário e o Albino eram para vir, mas preferiram ficar a ver o Bonanza. Lá com eles!
Arrancámos ligeiros virados à festa. O sol ainda batia a pique, mas nuvens, ainda não muitas, faziam-lhe já companhia. A meio do caminho, mais. Parecia que iam também para a festa, e que estavam ainda com mais pressa do que nós. Mas de repente de novo a solidão da luz. E assim foi praticamente durante toda a tarde.
Uma vez chegados, depressa fomos ver se encontrávamos alguém conhecido, se víamos algum BMW, que era mais isso que lá nos levava. O baile ainda não tinha começado, mas o recinto já se encontrava bem composto. Num entretanto, que os entretantos sempre acontecem, fomos beber uma laranjada fresquinha. Estávamos a precisar.
À hora marcada -mais a meia três quartos da praxe-, lá começa o conjunto a debitar som, do bom, que aquele conjunto era mesmo à maneira. Os já arranjados foram os primeiros a menear as ancas, os que melhor piscavam os olhos foram os que se lhes seguiram. Comigo e com os meus camaradas, nada! Nada na primeira, nada na segunda; nada na primeira parte, nada na segunda. Da terceira não posso dizer o mesmo, só mesmo porque esta não existiu, nem sequer fizeram um encore! Soubera-o mais tarde. Estou a faltar à verdade, ainda demos uns pezinhos de dança, mas só naquelas modas de danças sozinho, tipo yé-yé.
Piscávamos tão mal os olhos!, qualquer um de nós!... Até devia meter dó. Digo isto hoje, à distância, porque a mesma e o espaço que a compôs me ensinaram coisas. Devemos ter metido dó a alguém mais piedoso. Enfim!
E o céu já carregado de nuvens, ainda não era noite nem crepúsculo. Lá por cima o vento, de oeste, dava-lhe forte. Nós como só olhávamos para baixo, nem sequer para a altura dos olhos das pessoas olhávamos, não demos por nada. “ Eh pá, pessoal, temos que nos meter ao caminho. Vamos levar uma molha do caneco!”, o manel. “Espera aí mais um bocadito, já falta pouco para acabar!”, o Francisco. “Pois, então isto está a render como o caraças!”, o João. Eu estive para não dizer nada. Pois o que haveria mais para dizer?! Tempo perdido, melhor, mal gasto. Irmos à caça mal armados! Ai, se nós nos atrevêssemos a aprender com o povo. Temos vergonha de ir para a carreira de tiro antes de nos aventurarmos no mato, depois é assim! Estive para não dizer nada, mas disse. Lembrei-me da minha Esmaltina, e resolvi dar razão ao manel. “ O manel tem razão, malta. Vamos já embora, a ver se nos livramos a ela!”.
Fomos, viemos… mas não nos livrámos a ela, de todo. Mal tínhamos encetado a viagem de regresso, ainda o conjunto se ouvia, já chovia a potes. Aguaceiro daqueles que fazem lembrar que seria mesmo bom que de vez em quando o pessoal da Câmara Municipal limpasse as sarjetas. Depressa nos confundíamos coma a água. E depois era a chuva a molhar-nos directamente, era a chuva a molhar-nos por via dos pneus das bicicletas uns dos outros, que os guarda-lamas não são guarda-chuvas, e pronto. De repente, e já o crepúsculo morria para dele nascer a noite, o céu pára de nos desancar. Mas eis que, nem dez minutos depois, nova descarga, e esta dura até chegarmos à terrinha, até cada um ir, sem um até amanhã, para sua casa.
Comigo sei o que se passou a seguir. Quer dizer, com os outros também, pois cada um contou aos outros, no dia seguinte, mas deles não vou falar. Pareceria mal. Chego a casa, meto a bicicleta na arrecadação, bato à porta, esta é aberta, pelo meu pai, e a minha mãe, lá de dentro “ Vês, vês o que fizeste à minha combinação? Ainda agora o teu pai ma ofereceu, pelos anos. Vê como ela está?!”.
Estava uma lástima, a combinação. Aliás, a combinação já não o era. Era combinação mas de um outro tipo. Era mais uma combinação de tecido com buracos no tecido, com óleo de carros e com água da chuva. Dera-se o caso de a roupa ter secado durante a tarde. Não chovera, fizera algum vento, a temperatura ainda estava para essas coisas, e a roupa secara. A combinação, coisa fina, de espessura, mal secara logo ficara à disposição do vento. Tão magrinha, mesmo um ventito qualquer faz dela o que quer. Assim, numa rajada um pouco mais atrevida e cínica, voara do fio para o chão do quintal; deste voltara a voar, mas agora para o chão da rua, que é a estrada. A combinação fez-se, contra-vontade, bem o sei, pista para motorizada, alvo para ciclista apontar, asfalto para carro rolar. Foi rompida, vilipendiada, sujada de óleo e de lama, e no fim de água molhada. O problema é que uma combinação nunca pode, a bem, deixar de ser combinação, e aquela deixou-o. E foi por isso que a minha mãe não ralhou comigo naquele dia por eu estar todo molhado.
“As molas, onde estão as molas?”.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

As casas ficaram maiores

Viva, pessoal! Apetece-me postar uma cançãozinha -só a letra, a música fica a vosso cargo:)


A noite passada sonhei que já não havia ninguém com quem jogar à bola.
Um amigo de meu pai diz que já não tem com quem ir à bola.
Um conhecido lamenta os matraquilhos despedidos do café da sua aldeia.
A moça do lado diz não ter já razão pr’a ter vaidade.
E eu noto que o meu sonho espelha a realidade.

Tantos lugares pr’a estacionar, tantos!
Mas quantos carros sem papás ao volante!
Mas quantos carros conduzidos por avôs!
Que saudades dos ais que as mamãs provocam!,
sentem meninos e meninas a quem estas coisas tocam.

refrão

“Que é dele, do meu filho, que andava a namorar?”
“Que é da minha menina que estava pr’a casar?”
Carpem desgostos, pais novos, mas velhos de agonia.
Lamentam de noite, deploram de dia.
Que é feito do futuro que o passado prometia?

Deram-lhes o ser, pagaram-lhes o saber.
Em troca, apenas quiseram o ter.
O ter sem posse, o ter que é mais um ser.
Ser o amigo, ser a companhia,
o porto seguro, na noite, no dia.

O papá não está!
Mamãs, poucas por cá!
Pr’a onde foi tanta gente,
assim num repente?
Por que ficaram as casas tão frias?

Refrão