quarta-feira, 10 de maio de 2017

Viagem na Roda Gigante


 

            A Feira Popular era, de facto, popular. Fazia, sem dúvida alguma, jus ao seu velho nome. Sextas, sábados, domingos, vésperas de feriados, feriados e períodos de férias sempre a abarrotar. Nos outros dias, se bem que o bulício não fosse igual, ambiente e vida nunca faltavam.

            A história que, resumidamente, vos vou contar tem como protagonistas um grupo de amigos, em rigor conhecidos - pois nenhum ainda passou daquela fase que precede uma eventual relação de amizade -, pessoas que se foram conhecendo, ao longo do tempo, na Roda Gigante da Feira.

            Dividia-os a paixão pelo clube, pois por muito inverosímil que pareça cada um tinha o seu, e cada qual o defendia com garras e dentes. Acesas discussões todos os fins-de-semana e princípios da nova, em tempo de época, até o defeso chegar. Embora as discussões não mostrassem sinais de conhecer um fim, o convívio era-lhes inevitável, vital mesmo! As temperaturas das querelas, essas assim como tão rápido subiam, também súbito desciam. O equilíbrio sempre espreitou, e quando era de facto necessário entrar, entrava mesmo.

            Ora, se na Roda se foram conhecendo, era porque na Roda se encontravam regularmente. Pode mesmo dizer-se, sem que grande seja o exagero, sem se cair em avaliação ridícula, tão só enfatizando, que viviam na Roda, tal não era o uso dado pelo grupo de compinchas ao monstro de cadeirinhas voadoras!  

             Não é para todos, a Roda! Um gosto danado pela adrenalina, adictos inveterados, os impulsionou à viagem. Uma paixão doentia e um amor calculista pelo trajecto alimentavam a rotina.

            Todos adoravam o ponto cimeiro, o cume, o zénite do lugar. Porém, por paradoxal que às primeiras pareça, era cá em baixo, na base, onde cada um deles se sentia verdadeiramente bem.

            Só às primeiras o paradoxo aparece como opção a reter, só às primeiras; bem depressa chegam as segundas a mostrarem-nos que a lógica é reinante na factual observação. É que uma vez chegados acima, todos o sabem, não tarda começa a descida, e quão brusca ela é tantas vezes! Tão mais brusca quanto mais alto se subir e menos cautelas forem postas na construção da inevitável descida. Ao invés, cá em baixo, para além de ser ausente a possibilidade de queda inquietante, para além deste perigo não existir sabe-se que, mais agora, logo mais, recomeçará a subida. É o reino da ditadura do futuro, do sofrimento por antecipação.

            Ora, devo, a bem de ficar de bem comigo próprio, referir que estas sensações de, digamos euforia/depressão, as do falso paradoxo em relação ao lugar de surgimento, apenas as sentem dois dos amigos, conhecidos, vá lá! Os outros desconhecem aquela relação; para eles será sempre o eterno limbo emocional.

            Mas então, continuando a história, que não é estória, impõe-se-me mencionar que a Roda não sobe sempre direitinha, sem oscilações, o mesmo acontecendo com as descidas. Assim sendo, volta e meia, ou menos que isso, vemos os das pontas serem encostados aos ferros, e os do meio chegarem-se aos das pontas.

            Raras são as vezes em que os forçados encostamentos não encontram reacção alérgica, o que, diga-se, e a comprovar o supra referido, não configura a presença de verdadeiras amizades, mas sim mais o encontro de pessoas que se conhecem, convivem e sabem não lhes ser possível dispensar esse convívio. Qualquer delas, das pontas ou do meio, sabe serem indispensáveis as regularíssimas convivências, as repetidas reuniões. O problema poderá surgir não tanto da natureza da reacção em si, mas mais da intensidade da mesma.

            Já falam entre eles, os que sentem o falso paradoxo e os do limbo, que a bem da digestão de cada um, do bom funcionamento dos seus estômagos, deverão, todos, ter o bom senso de, sem prejuízo de mazelas graves, claro, amparar, amortecer o choque dos do meio. Caso não, os vomitanços surgirão… mais tarde ou mais cedo.

            E é nesta reflexão que se encontram todos, de há muito. Entretanto, a viagem continua. Umas vezes sobe-se, outras desce-se. Por ligeiro que seja o declive, curto é o tempo na horizontal.

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