terça-feira, 7 de abril de 2015

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            Há cerca de dois meses que eram amigos no Facebook. Não se conheciam, jamais se haviam visto, ver-se-iam, vão ver que sim, mas jamais iriam conhecer-se. Viviam longe um da outra, uma do outro. Esta coisa do longe é bastante relativa, mas sim, viviam longe um do outro neste exíguo Portugal peninsular, ainda assim tinham alguns amigos em comum. Talvez daí a amizade, no fundo uma amizade por contágio.
            Eh pá, pessoal, o gajo não era mal-parecido, ela, hummmmm, um mimo, daquelas de capa de revista, vá lá, das páginas centrais.
            Afoito como era - não sei se ainda o é, pois só imaginei o passado -, desde o terceiro dia daquela maciça amizade que encetava, ele, o António, conversas brincalhonas com a beldade, a Rita, Rita Maria, adianto mais um pouco na precisão. Ele com cara de uns trinta e poucos, ela com aparência de não mais que vinte e cinco, por aí. Bem, ao cabo de duas semanas já a desafiava para um desejado fim-de-semana no Algarve. Ela, em jeito de brincadeira, dizia: “ vamos às caraíbas passar uma semanita “. Ele: “ Ok, vamos marcar isso “. Embora ambos se dissessem numa relação, tal não impedia estas conversas, aliás, não impediu, de todo, o desenvolvimento da intensidade e da densidade da temática.
            Então, era tempo. Caraíbas, fora de causa!, Algarve também, agora Alentejo, o romanesco Alentejo, é para já. Deliberaram. Até porque a moçoila era - talvez ainda seja, como dei a entender não imaginei o futuro do passado – de Santiago do Cacém. Ele, a confiar nas informações disponibilizadas, de Aveiro.
            “ Ritinha “, já a tratava assim, “ consegues alforria no próximo fim-de-semana, de sexta a domingo?, “ Sim, em princípio sim. Amanhã confirmo-te, pode? “, “ OK “. Era segunda-feira, terça à noite já havia resposta... positiva. Ele ia gastando as mãos, de tanto as esfregar de contentamento. Não cabia em si. Na próxima sexta-feira iria encontrar-se, pelas oito da noite, da tarde, que a primavera já se impunha, e a hora de verão voltara, num simpático bar, por ela sugerido, em Vila Nova de Santo André. No apelativo litoral alentejano. Uma vez lá, marcariam hotel, ainda antes de faustoso e afrodisíaco jantar. Falavam mesmo neste registo, com smiles à mistura, obviamente. Comida à maneira, melhor, comidas, pois!, também das que se enquadram no quadro, passe o pleonasmo, que essas são mesmo as do menu principal; praia; descanso... bem, descanso talvez não, nem convém. Duas noites e três dias de paraíso, que os momentos que antecedem estas coisas, logo após a alvorada, já contam. Ó se contam! Até o trabalho não sabe a isso, durante a sexta programada. Duas noitadas e três dias de paraíso.
            Ora, à hora marcada, mais coisa menos coisa, lá estava o António, depois de curta busca, no bar combinado. Um barzinho bem simpático e, para espanto do aveirense, com bastante movimento para hora ainda tão jovenzinha. Ok, era sexta-feira, mas às oito horas?! Pelos vistos ali era assim.
Então, toca de pedir um copo, de o ir bebericando à medida que ia metendo os óculos em tudo o que era canto, na esperança de já lá se encontrar aquela doce e encantada cara conhecida... Mas nada. Na mesa ao lado, não; nas mesas mais próximas, o mesmo; nas mais afastadas, igual; ao balcão, de todo. Como se conheciam tão bem, nem combinaram lugar no bar, esta geografia por si só bastaria, pois mal se olhassem...
            Passa um quarto de hora, meia hora já lá vai, uma, e já passa das nove, mas nada, absolutamente nada. A distância percorrida implicava mais um sacrificiozinho, esperaria pelo menos mais uma horita.
            Às onze e meia da noite, já o bar começava a ficar pelas costuras, decide dar meia volta, não esperaria mais. Procurar a auto-estrada e rumar à Praça do Peixe, a capital da noite em Aveiro, era agora o seu objectivo imediato, o hospital  certo para a doença aguda que o atormentava. Tinha olhado, por vezes aturadamente, para todas as mulheres presentes naquele bar, para as que já lá não se encontravam, para as que iam entrando, mesmo para as acompanhadas. Nada. E com aquele comportamento não tardaria estaria a levar no pêlo, pela certa. Tinha sido ludibriado, gozado, literalmente gozado. Alguma vez?! Uma beldade daquelas para os seus queixos, tá bem, tá!
            Pouco mais que vinte minutos depois da decisão tomada e levada a cabo pelo António, que agora se sentia Tóino, uma senhora toda só numa mesa bem perto da sua, de olhos que já não aguentavam mais, procede da mesma forma.
Ambos se encontravam inconsoláveis, cada um se dirigiu à sua viatura, os bancos do lado, ambos vazios.

2 comentários:

SuperFebras disse...

E assim vai o amor nos dias de hoje!
Em algo parecido ao namoro por carta, quantas vezes escrita por outrém! Só que a resposta demorava quinze dias, quantas vezes prefurmada por uma pétala de rosa.
Nesse tempo o namoro era febril, acabando em duradouro casamento, quantas vezes ela deixava de amar por tantas nódoas negras corporais!
Gostei muito de ler Carlitos. Que bela pequena-metragem!

Um grande abraço
Álvaro José

Carlos Gil disse...

Obrigado, grande Álvaro. Abraço.