segunda-feira, 16 de março de 2009

O menino do papá

E na sequência do post anterior:



O MENINO DO PAPÁ

Mais ou menos como o vou fazer, um senhor da minha terra conta há anos esta brilhante anedota, que classifico de parábola, sobre a ditadura a que se sujeitou um pai anos a fio. A mesma pode, obviamente, levar horas, dias, meses, anos – o record está nos nove meses – a contar. Vou tentar abreviar a coisa.
Então, habituado às vontadinhas todas, o Ricardito, hoje com doze anos, faz da vida dos pais – especialmente da do pai – pena pesada:
- Ó pai, leva-me ao café contigo!
- Não, que tens que fazer os deveres.
- Ó pai, leva, leva!
- Ricardo, já te disse: não!
- Pai, leva (a gritar), leva, leva-me ao café contigo! Leva (a gritar, calculista, porta aberta, virado ao condomínio), leva, leva!
- Pronto, está bem. Cala-te lá e vem daí. Mas é para te portares bem… não vais pedir nada!
- Sim, eu porto-me bem. Não peço nada e não saio de ao pé de ti.
- Ah, assim está bem!
Já no café:
- Pai?
- Sim!
- Compra-me um chocolate!
- O que é que combinámos, Ricardito?
- É só um.
- Não!
- Eu quero um chocolate, eu quero um chocolate (gritos volumosos), eu quero, eu quero um chocolate!
E os amigos do pai, enfadados com o já mais que conhecido panorama, a olhá-lo complacentes… Se fosse com eles!...
- Ok, qual é o chocolate?...Ficas a saber que amanhã não vens!
E os amigos do pai, sempre complacentes mas a rirem, ou não, por dentro.
- Tá bem, não me importo. Quero aquele chocolate grandão com amêndoas!
- D. Maria, dê-lhe aí o chocolate, por favor!
No dia seguinte, depois da janta:
- Ó pai, leva-me ao café contigo!
- Nem penses!
- Eu hoje porto-me bem.
- Menino, já disse: nem penses!
Directo ao condomínio, aos berros:
- Ó pai leva, leva, leva-me contigo ao café!... Leva!
Os vizinhos, ainda que afastados da leveza de espírito fossem, já nem faziam caso.
- Anda, desgraçado, vem daí!... Mas o que é que eu fiz para merecer isto?!
Enganou-se na questão, o bondoso pai. Era mais assim: mas o que é que eu não fiz para merecer isto?!... Penso eu, que estou de fora.
Bem, a caminho do café, depois da repetitiva cena - que mais parecia ensaio de péssimo actor, pois tantas eram as repetições! -, o pai fora “obrigado” a comprar-lhe um jogo novo para a Play Station e, já no café, um Magnum Double.


Os dias passavam, os meses passavam, as cenas repetiam-se.
Pouco antes de completar treze anos, o Ricardito, em pleno café da D. Maria, diz ao pai, alto e bom som, que quer merda… isso, leram bem, merda! Vejamos:
- Pai, paii?
- Sim!
- Quero merda.
O quê?!
- Quero merda, não ouviste?
Tchap… A primeira estalada, em quase treze anos, que aquele pai dera àquele filho.
- Mal-educado!... Rapazes, desculpem, por favor desculpem! Vocês sabem como ele é… Mal-educado! A partir d’hoje acabou-se. Não sais mais comigo!
A gritar, guturalmente, em pleno café:
- Eu quero merda, eu quero merda, eu quero merda!
- Tá, pá. Vem daí!... Queres merda, vais tê-la!
Agarrou nele pelo braço, com força, nunca a razão se lhe toldara tanto… ou talvez o contrário, agora que pensei melhor!, e arrastou-o para casa. Uma vez lá, faz-se à casa de banho. Esta encontrava-se ocupada com a necessária ocupação da esposa em realizar necessidades fisiológicas de carácter sólido. Veio a calhar!
Pede o senhor Francisco à D. Isabel:
- Isabel, quando acabares não limpes a sanita.
- O quê?
- Não limpes a sanita, por favor!... Depois explico.
Aliviada e já na sala de estar, a esposa questiona o inusitado pedido do marido. Este responde-lhe “ já vais ver”.
Foi à sanita; com uma concha da sopa, daquelas bem grandes, retirou uma bela porção da bem cheirosa.
- Pronto, aqui tens!
- Mas eu quero merda frita.
- O quê, malvado?!
Corre o miúdo, e já no condomínio e a gritar:
- Eu quero merda frita, eu quero merda frita, eu quero merda frita!
Desta feita os vizinhos acorreram à porta.
- Certo, meu bandido, certo. Vem cá!
Pega numa frigideira; mete-lhe um tudo-nada de óleo vegetal; acrescenta a dita; acende o fogão e zás. Em cinco minutos estava a merda frita e bem frita.
- Aqui tens. Merda frita!
- Eh pai, prova!
Segunda estalada.
Sempre a gritar:
- Eh pai, prova, prova, prova, prova, prova!
- Tá bem, desgraçado, vou provar…
E provou!
- Pai, é bom?
- Claro que não, sua besta!
De novo aos gritos:
- Então não quero, eu não quero, eu não quero merda, eu não quero merda frita!




Carlos Jesus Gil

29 comentários:

  1. Uma delícia...de facto e lamentavelmente, nos dias de hoje, cada vez há mais pais assim.
    Passou-se do 8 para os 80.

    Um abraço

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  2. rsrsrs Rir a bom gosto. Mas é de facto uma grande lição que se deve retirar daqui.

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  3. eheheheh demais!
    Fizeste-me ir ao dicionário ver o que é uma parábola e isto é mesmo uma. Faz rir e dá lição

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  4. Grande parábola cheia de bom humor.
    É como diz o Dragão vila pouca, passo-se do oito para o oitenta.

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  5. Bahhhhh!
    E não é mesmo o que se passa hoje em dia.......

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  6. Acredita que vinha aqui apenas para te fazer um convite!
    agarrei-me à leitura do teu post, e..., chorei a rir!

    Sabes que conheço um puto assim??, não por pedir merda frita, claro!

    agora o meu convite:
    Gostava que participasses lá nas 2ªs "BlogOlimpíadas" da “Língua Portuguesa”.
    É importante ler todo o texto postado com atenção para dar uma resposta certa.

    Este convite é igualmente extensivo aos teus visitantes ou para quem esteja interessado…obviamente!

    Um abraço e boa semana!

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  7. Safa!
    Estou como o fj também conheço deles assim , ou pior....

    Mas também dou razão à e se eu fosse... tu lias? o paizinho realmente mereceu a merdona :)
    E tu, vens cá com cada uma!!!!

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  8. Grande post rapaz!

    Com alguns dias de vida, todos temos que falar baixo e andar descalços, não vá o bebé acordar...

    Durante os primeiros meses, são eles que marcam os ritmos das refeições, sestas, passeios e demais actividades...

    Aos 3 anitos tudo o que digam tem piada, ainda que seja uma exigência ou uma ordem para um progenitor ou avô.

    Aos 5 anos a irreverência parece-se tanto com a falta de educação, que nos rimos perdidamente com as suas tiradas.

    Aos 10 anos parece mal repreendê-los em público ou mesmo à frente de amigos ou familiares, por isso, deixa andar...

    Aos 15 a puberdade justifica o mau humor, a arrogância e a estupidez, afinal são as hormonas...

    Aos 20 já ficamos satisfeitos se dormirem em casa, ou pelo menos avisarem que dormem fora...

    A partir dos 25 temos que sustentar os seus vícios e lutamos para que estejam presentes na noite de Natal, ou que se lembrem do nosso aniversário.

    Hoje estou cá um pessimista, talvez pela notícia da agressão da miúda de 13 anos à professora em Esgueira...

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  9. É pimo..... e tu??? vens cá??? Ou será que não???

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  10. Menino do demo...

    Hua, kkk, ha, ha, brincadeira com um fundo de verdade.

    Fique com Deus, menino Carlos.
    Um abraço.

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  11. Oi,
    Retribuindo a visita que vc fez lá no meu blog.
    volte qundo quiser!
    bjinhos

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  12. olá!
    oh girl, what you're talking..
    some kind rude but funny ;)

    Obrigado por visitar o meu humilde blog. absolutamente, eu não tenho nada.

    (I'm sorry for the bad grammar in Portuguese!! lol)

    Beijos.

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  13. Real Gana,

    Um prazer imenso sua presença no nosso blog.

    Não perderemos contato.

    Maravilhosa terça

    Rebeca

    -

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  14. Boa noite Carlos!

    Atualmente há muita permissividade. Os erros aparecem nos noticiários de TV sob a forma de morte de cidadãos de bem nas escolas.

    Li em um comentário sobre o seu texto que aí também há agressões a professores, tal como aqui e em muitos lugares espalhados pelo mundo.

    Valores áureos são questionados e quebrados por adolescentes que nem aprenderam a limpar-se no banheiro ainda.

    Não sei onde se vai parar com essa educação imbecilizante.

    Um abraço fraterno!!!

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  15. Olá bom dia...em primeiro obrigado por me ter visitado e comentado, agradeço a simpatia, em segundo é bem verdade a sua "história" á infelizmente crianças assim, simplismente mal educadas, mas os pais têm muita culpa por aquilo que por vezes os filhos se tornam, não sempre, mas já minha avó dizia que era de pequenino que se dava educação, e é bem verdade, é vergonhoso sair com uma criança dessas á rua rsrs, eu não sei onde me meteria mesmo...mas infelizmente os paia hoje em dia preferem perder tempo jogando, vendo tv, fazendo tudo o que acham que têm direito, e se esquecem que têm um filho que precisa de atenção e educação, amigo gostei mto, quando quiser me visitar esreja á vontade eu farei o mesmo, um bom dia.

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  16. Mesmo a tolerância quando desenfreada termina por nos colocar onde não queremos estar.
    Cadinho RoCo

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  17. Aff... Este papá é mesmo um babaca....Bem o mereceu.


    Beijo

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  18. eheheh bem feita!
    à que tirar lição daqui. Os pais devem educar.

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  19. Bem verdade caro amigo, bem verdade. Genericamente não se sabe dar educação. Empurram tudo para a escola. De casa é que ela deve partir.

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  20. eheheh muito boa. A educação também é alimento e parece que alguns pais se esquecem disso.

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  21. Nem mais , meu amigo !
    Pai e filho precisam de ser reeducados !


    Abraço

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  22. É uma vergonha o que alguns pais deixam fazer. E compram tudo de marca aos filhos.

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  23. Que dizer?
    Apenas, assim, agradeço a simpatia e a visita. É sempre bom ver-te pelo sítio peludo_____________________
    Obrigado!
    Um abraço «««

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  24. Certo, a história foi boa, e vamos combinar que esse pai era uma "merda" q especie de pai era esse que fazia todas as vontades do filho....mereceu a merda frita hauhuahuhahauhauahuahuahuha

    Beijosssssss

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  25. O menino do papá tem que ter mais de 18 anos, agora do Papa pode ser menos.

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