terça-feira, 22 de abril de 2014

A Flecha Ciumenta

Nos quarenta anos sobre o inesquecível Abril:


A pessoa de quem vos falo, o senhor Ernesto, ronda os sessenta e cinco anos de idade e serviu a pátria, de arma quase sempre em riste, nas quentes e húmidas terras da Guiné-Bissau.
Naqueles tempos em que se servia a pátria nas pátrias doutros, devia ser cá uma coisa, uma agonia do caneco a altura da concepção. Pior ainda o período de gravidez! Nada como agora, absolutamente, menino ou menina, desde que venha com saúde… Ainda se conta muito. Contam eles, os filhos, recordam-no elas e eles, muitas delas e muitos deles ainda, as mães e os pais. É que menino grande e saudável, se não tivesse um certo factor por cá muito usado - ainda hoje, embora a outros propósitos, que não somos nada secos de atavismos -, faria cruzeiro pela certa. Inspecções, recruta, especialidade e, se tudo estava nos conformes, zumba, África com ele!
O problema é que aquilo por lá, pelo menos na Guiné do meu vizinho, não era cá pr’a brincadeiras. Era forte e feio. Nas outras pátrias dos outros a que chamávamos nossas – e eram-no, dos que lá nasceram, concordo! -, nas outras, as coisas também não eram belas, pelo contrário, mas ali eram mal pior. Muitos dos Ernestos por lá ficaram, outros vieram sem fazer as malas, outros, os demais, chegaram sem de verdade nunca terem de lá partido. É o caso do Ernesto da minha rua. Durante anos tirou férias nos dias da festa da terra, para se acoitar numa aldeia vizinha, na casa de um irmão mais velho que por lá casara. E diz quem o conheceu que não havia melhor dançarino, só que foguetes, ohh!, terrível, logo para o chão. Ao segundo dia de festa do primeiro ano a seguir à desmobilização, casa do irmão com ele até os arraiais e a foguetada terminarem.
De vez em quando, raro, atreve-se a falar de determinadas passagens, de cenas que os seus olhos filmaram sem a sofisticação de Hollyood, mas de forma mais indelével. Recordo aqui uma, daquelas que nunca o abandonam, por mais rude que seja o cajado ou potente que seja a metralhadora com que tenta afugentá-la. Contou-ma várias vezes, sempre como se fosse a primeira:
Era Agosto, um calor infernal e uma humidade viscosa, peganhenta, tornavam a atmosfera quase tão difícil de suportar quanto o medo das armas adversárias. O seu pelotão, há cerca de dez meses na Guiné, dirigia-se, como era rotina, para o interior a fim de substituir um outro pelotão que protegia uma ponte, muito importante para as comunicações terrestres, numa área do mato perigoso – ele até dizia que nenhum mato é perigoso, que perigosas são as pessoas. E dizia mais, que não eram só as de lá que eram perigosas, as de cá também o eram! -, quando, quase a chegar ao destino, sofreram uma emboscada dos rebeldes guineenses, os que lutavam pela independência do seu país, a quem na altura os portugueses chamavam “turras”. O ataque provocou várias mortes no pelotão do senhor Ernesto e do Tony, o seu camarada inseparável - se para isso só a vontade deles contasse -, e um número grande de feridos. Ele não dizia quantas mortes e quantos feridos ao certo, ou por não saber ou por achar que isso não era o mais importante. Referia no entanto que só não morreram todos porque os colegas que iriam ser rendidos – substituídos – ouviram o tiroteio e vieram rápido em socorro deles.
O Tony foi um dos feridos, dos gravemente feridos, com balas nas pernas e, o mais grave, com uma na coluna vertebral. Foi esta que o deixou para sempre paralítico. Paralítico aos vinte e um anos de idade!
A única coisa que não é triste na história do Tony, disse-me com emoção indisfarçável, foi o facto de a sua namorada de sempre, aquela que o amava enquanto ele caminhou direito, continuar a amá-lo sentado na cadeira de rodas. E de, naturalmente e rematando um desejo inelutável, terem, pouco tempo depois de ter sido desmobilizado e chegado à metrópole, ao Portugal ibérico e europeu, casado. Ela não o abandonou, e casaram. Ernesto não foi ao casamento do amigo, mas recebeu copioso relato do mesmo em aerograma que ainda hoje religiosamente guarda.
“ Há já alguns anos que não vejo o Tony “ - disse-me da última vez que me projectou a cena, pois as coisas complicaram-se e o amigo teve que ser internado no hospital do Alcoitão, um Centro de Medicina Física e de Reabilitação dedicado a prestar cuidados de saúde a pessoas portadoras de deficiência de predomínio físico, congénita ou adquirida, oriundas da sociedade em geral, mas com enorme clientela nos “deficientes” das Forças Armadas Portuguesas -, “ Há já alguns anos que não vejo o Tony e, segundo me disse um amigo comum, nunca mais ninguém o verá, pois falecera. Falecera naquele hospital, vítima das muitas sequelas que aquelas balas deixaram - principalmente uma delas, a mais perigosa de todas -, há cerca de quatro anos. “ Ernesto, visivelmente abatido. Mais um estilhaço alojado na sua cabeça. Não era necessária radiografia, notava-se bem à vista desarmada.
Aquele era mesmo um tempo em que as mães rezavam para não terem filhos-homens. É que as raparigas não iam à tropa… e mãe é mãe!
Bem, dos dezanove anos de sono tranquilo, até mesmo em bebé, lembrava sua mãe, já velhinha, Ernesto não tem memória. As noites são todas passadas em carreiras de tiro, pistas de obstáculos, mato cerrado e emboscadas. Sobressaltos seguidos de sobressaltos. A mulher, de tanto treino e tão grande vivência, já pela guerra não dá. Nem de dia - quando a normalidade dele, à custa de grande esforço de todos os do seu universo, se aproxima da dos outros -, nem no leito. Pois quem se importuna com a familiar normalidade?! De quando em quando, uma excepção. Há umas noites, uma. Na mercearia da rua, de manhãzinha à hora do pão, todas a ouviram… com respeito: “ Esta noite o meu Ernesto, nem quero que me lembre, então não desata aos gritos, altos gritos, acordei logo, a dizer que estava a ser perseguido por uma seta e que esta não o largava. Que quanto mais corria, mais a seta voava; se virasse para a direita, a seta ia também para a direita; se escolhesse a esquerda, era para a esquerda que a seta ia. Disse-me que parecia daqueles mísseis que só param quando atingem o alvo. Acordou aflito e lavado em água, e a dizer que ainda bem, que se continuasse a dormir a seta ainda o apanhava. E sabem o que me disse? Que enquanto corria perguntou à seta que mal é que lhe tinha feito e que ela lhe disse que era para ele aprender, para que não sonhasse só com balas, granadas, morteiros…! E depois disse-me que lhe chamou flecha ciumenta.”
O senhor Ernesto ainda não é velho, mas da sua mente não posso dizer o mesmo. O senhor Ernesto tem o corpo todo, mas a sua mente encontra-se mutilada. O senhor Ernesto trouxe de África duas tatuagens, uma num dos braços, outra na mente!

5 comentários:

AZUL DRAGÃO disse...

Carlos :

Parabéns pela autenticidade ! Muitos parabéns !


Felicita-te um ex-combatente .

Abraço

oquemevierarealgana disse...

Então, é tb para si, caríssimo amigo "Dragão"!
Abraço

devid john disse...

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SuperFebras disse...

Amicíssimo

Aqui está a prova que todos perdem com a guerra.
Paraplégico ou síndromas traumáticos mentais, patologias específicas e não específicas, o resultado é igual: sofrimento até a morte.
Por azar aos que sobreviveram, a morte seria melhor sorte!
Nós, que não vivemos as suas vidas e jamais teremos uma pequena ideia daquilo que é vivê-las e que nunca saberemos que emoções estes vivem, pensamos que com analgésicos opioides ou antipsicóticos tudo se resolve, o pior é que como em qualquer cirurgia, ficam sempre as cicatrizes e contrário a essas, estas nunca saram.
O problema é que na Pátria dos outros os Ernestos e os Tonys, como os da nossa Pátria, continuam a brotar de guerras contínuas não fundamentadas por ideais mas por avaro e ódio encabeçado por nada mais que criminosos .
Tu e eu escapámos por pouco. Quem sabe este conjunto de letras não fosse lavrado sem a Revolução dos Cravos!

Um amistoso abraço
Álvaro José

oquemevierarealgana disse...

Grande amigo Álvaro, excelente comentário o teu! Pois, a avareza, o ódio e o dinheiro continuam a motivar guerras. Terminam umas, outras começam.
O paradigma tem que mudar! Devemos trabalhar nesse sentido.
Abraço